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Presbitero Presbiterio
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PRESBITERO

 I - A ESCOLHA DOS PRESBÍTEROS

  1. Significado da função.

A palavra presbítero, em sua origem significa “Forma comparativa” depresbys (gr.), que tem o significado de “mais velho, como substantivo, uma pessoa mais velha; especialmente um membro do Sinédrio israelita (também figurado, membro do conselho celestial) ou um “presbítero” cristão — ancião, mais velho, “um título de dignidade” “Anciãos de igrejas cristãs, presbíteros, encarregados da administração e governo das igrejas individuais”. Equivale a “episkopos, supervisor, bispo. Também didaskolos, professor; poimén, pastor”.

Nos primórdios da Igreja, o presbítero era “o pastor” local, fazendo parte de um grupo de obreiros, responsáveis pelo cuidado das novas igrejas que surgiam em decorrência da evangelização intensiva. O apóstolo Paulo, que também era pastor e presbítero, teve o cuidado de organizar a administração das igrejas por ele abertas em suas viagens missionárias. Escrevendo a Tito, seu discípulo, orientou-o quanto ao estabelecimento de presbíteros, nos diversos lugares, onde havia igrejas, indicando que eles seriam de fato os responsáveis pela liderança das novas igrejas.

Elinaldo Renovato. Dons espirituais & Ministeriais Servindo a Deus e aos homens com poder extraordinário. Editora CPAD. pag. 130-131.

PRESBITÉRIO, PRESBÍTERO Grupo ou ordem de anciãos que consagrou o jovem Timóteo (1 Tm 4.14). Parece que Paulo, nesta ocasião, liderava este grupo (2 Tm 1.6). Da mesma maneira que a nação israelita tinha seus anciãos, as Sinagogas também tinham seus, e o mesmo ocorria com o Sinédrio. Junto com o presbitério havia um conjunto de sacerdotes e escribas. Na época do NT este grupo tinha como presidente o sumo sacerdote. Paulo estabeleceu as igrejas sob o governo de um corpo de anciãos (At 14.23; 16.4; Tt 1.5; cf. At 15.4,6,23; 20.17,28). Nas igrejas atuais, particularmente naquelas que adotam a forma de administração presbiteriana, o grupo de anciãos da Igreja local é chamado de sessão, enquanto aqueles que se reúnem como representantes das igrejas de uma área maior são chamados presbíteros. E impossível dizer se os anciãos mencionados em 1 Timóteo eram de uma ou mais igrejas.

PFEIFFER .Charles F. Dicionário Bíblico Wycliffe. Editora CPAD. pag. 1591.

ANCIÃO NO NT (literalmente pessoa mais velha ou homem mais velho; algumas vezes transliterado como presbítero). Este termo designava três grupos diferentes no NT: (a) indivíduos mais velhos; (b) líderes político-religiosos do Judaísmo e (c) os primeiros líderes da igreja apostólica.

  1. Formação: AT, Judaísmo Rabínico e a comunidade de Qumrã. De acordo com a terminologia do AT, o ancião era um termo vagamente definido, designando os líderes religiosos e políticos, especialmente de Israel. As referências bíblicas mostram que outras nações, como Egito e Moabe, possuíram tais líderes (cp. Gn 50.7; Nm 22.7). Embora vários termos hebraicos foram usados para descrever estes líderes, três termos aparecem com mais frequência que outros: ii?T sendo o termo técnico para ancião, mas geralmente significando uma pessoa mais velha (cp. Gn 43.7; Êx 3.16,18; 12.21; 17.5,6); nxw, significando idade avançada ou uma idade mais velha, do verbo que significa ser muito antigo (cp. lRs 14.4); e 12?, significando líder, chefe ou governador, e frequentemente aparecendo em contextos onde é claramente um sinônimo de ancião (cp. Jz 5.15; 6.6-16). Em Isaías 3.2,3 são mencionadas pelo menos onze diferentes posições de liderança pelo profeta; ancião é uma delas. Particularmente importante é a ideia dos “setenta anciãos” no AT (cp. Êx 24.1; Nm 11.16).

No primeiro século d.C., o ofício de ancião era uma posição regular na sinagoga judaica. No tratado do Sinédrio sobre a Mishná, as obrigações deste ofício são claramente destacadas. O conselho de anciãos era responsável pelo governo da comunidade judaica. Em lerusalém, o Sinédrio, que era um conselho composto de setenta e um anciãos, agia como a corte suprema para todo o Judaísmo. (Cp. Berakhoth4:7;Nedrarim 5:5; Me- ghillah 3:1; Edhuyoth 5:6; Ta’anith 3:8; Middoth 2:2; Ed 10.8; Lc 6.22; Jo 9.22; 12.42.)

As descobertas de Qumrã têm revelado uma comunidade pactuai, na qual o ofício de ancião também funcionava quase do mesmo modo que no Judaísmo, e há um consenso geral de que a comunidade de Qumrã realmente tinha conexões significantes com o Cristianismo primitivo. Isto não sugere que a Igreja Primitiva adotou sua estrutura eclesiástica da comunidade de Qumrã. O Manual de Disciplina (1 QS VI) fala dos anciãos (mebaqqer) como os que estavam em segundo lugar em autoridade, vindo logo após os sacerdotes.

  1. O significado e a importância para a Igreja do NT. Os termos associados com esta posição aparecem mais de setenta vezes noNT: (a) quase metade das citações referem-se ao ofício no Judaísmo (cp. Mt 15.2; 26.47; Mc 8.31; 14.43; At 4.5; 25.15; note: o termo não é usado nenhuma vez no evangelho de João, exceto na variante textual em 8.9, e isto é particularmente significante à luz do tom negativo do quarto evangelho para com o Judaísmo em geral); (b) cinco referências são designações comparativas de idade (cp. Lc 15.25; At 2.17 [RSV “homens mais velhos”]; Rm 9.12; lTm 5.2 [RSV “mulheres mais velhas”]; Hb 11.2 [RSV “homens de idade”]; (c) as referências restantes são em relação ao ofício na Igreja Primitiva.

Na história apostólica de Lucas, o ofício aparece, sem explicações de sua origem, pela primeira vez em Atos 11.30. A referência aqui é aos presbíteros na Igreja da Judéia, para quem uma coleta foi tirada na Igreja de Antioquia. Nos é dito mais tarde que Paulo “designou” (do verbo grego que significa “escolher ou eleger por meio de mãos levantadas ou indicação”) presbíteros em cada Igreja (At 14.23). A exata natureza desta ordenação apostólica ou nomeação não é descrita exceto para sugerir que orações e jejuns faziam parte do ritual. Nós podemos supor que esta aparição inexplicável, em contraste com a escolha dos sete em Atos 6, implica numa transição natural, da estrutura da Sinagoga Judaica para a organização da Igreja Primitiva (cp. At 2.46).

A questão sobre a qual a Igreja tem se dividido através dos anos é acerca do relacionamento do ofício de presbítero em relação ao ministério total da Igreja. Primeiro, deveria ser observado que em muitas passagens eclesiológicas importantes o ofício de presbítero não é especificamente mencionado. Os ofícios de diácono, bispo ou pastor assim como ancião são notavelmente omitidos ((ICo 12.4-11, e vv. 28-30). (em ICo 12.28 traduzido como “administradores” que pode ser uma referência a um tipo de presbítero moderador.) Em uma lista um pouco mais definida dos ministérios da igreja,

em Efésios 4.11, “pastores” (Ttotjnjv) e “professores” estão entre os títulos usados para descrever estes líderes. Segundo, as epístolas pastorais referem-se somente a dois ofícios: pastores ou presbíteros e diáconos. Em 1 Timóteo

3.1-13,0 texto usa episkopos e diakonos enquanto que Tito 1.5-9 parece usar os termos episkopos e presbuteros quase que de modo permutável: “te deixei em Creta, para que... em cada cidade, constituísses presbíteros... porque é indispensável que o bispo (episkopos) . “., Na carta à igreja em Filipo, a saudação menciona somente “bispos” (episkopos) e “diáconos” (diakonos), e deve ser observado que ambos termos são plurais.

Duas questões são levantadas pela evidência do NT. Primeira, qual é a importância da pluralidade de anciãos na igreja do NT? Segundo, qual é o relacionamento de bispo ou pastor com o ofício de presbítero?

Em relação à primeira questão, deve ser observado que duas possíveis explicações estão disponíveis. Por um lado, a estrutura existente da sinagoga, com sua pluralidade de anciãos é comparada à organização da Igreja do NT. Deve ser destacado aqui que, mesmo na sinagoga havia, um “cabeça”. A pluralidade neste caso não proibiria a liderança predominante de um presbítero, talvez referido como “presbítero que preside” (lTm 5.17). Há, na história posterior da igreja, um desenvolvimento que pode ser seguido desde uma pluralidade de presbíteros a um bispo presidente até uma estrutura episcopal hierárquica. A natureza das assembleias cristãs primitivas do NT, que geralmente cultuava em lares dos membros, pode também ajudar a explicar a pluralidade de presbíteros. Em outras palavras, em uma dada comunidade poderia haver um número de presbíteros responsável pelo cuidado de uma congregação particular, que se reunia em seu lar ou no lar de algum outro cristão na congregação. Exemplos claros disto são encontrados no próprio NT (cp. At 16.11ss.;Rm 16.3-5).

Em relação à última questão, já se tem observado que na época em que as epístolas pastorais foram escritas os termos “bispo” e “presbítero” foram usados de modo permutável (cp. lTm 3; Tt 1). Mas mesmo mais cedo no ministério de Paulo (cp. At 20.17-38), quando ele se encontrou com os presbíteros da igreja de Éfeso, ele parece referir-se aos três termos ao mesmo tempo — presbítero, bispo ou supervisor e pastor. A ideia de presbíteros servindo como pastores do rebanho e supervisionando a administração da Igreja ajudou a distinguir o título do ofício de suas funções práticas. Em outras palavras, o termo presbítero, originalmente, designava aqueles que eram, tanto natural quanto espiritualmente, mais velhos ou mais maduros. Observe que Paulo faz menção específica ao fato de que ninguém deveria ser admitido ao ofício de presbítero ou bispo sendo um “recém convertido” ou noviço (cp. lTm 3.6). Os outros termos — pastor e bispo ou supervisor — referem-se às funções deste ofício na Igreja. Um presbítero é, portanto, um homem mais velho, um homem membro da Igreja espiritualmente mais maduro, que é responsável pela administração da congregação. Neste último caso, é instrutivo que Pedro refere-se a si mesmo como um presbítero; “Aos presbíteros, pois, que há entre vós, rogo eu, que sou presbítero com eles” (IPe 5.1). Nos últimos escritos pós-apostólicos da Igreja, há uma evidência clara de que o ministério de pastor ou bispo e presbítero eram o mesmo (cp. Didaquê 10.6).

Finalmente, deve ser observado que o termo também tem um significado escatológico definido. Em Apocalipse de João, um grupo selecionado recebe o título de “vinte e quatro anciãos” e eles são chamados para participar na estrutura escatológica da redenção. Comentaristas do NT discordam sobre a precisa referência destes “vinte e quatro anciãos”, mas pode ser sugerido que este título aponta novamente para origem judaica do ofício (AT e Rabínico), bem como ao relacionamento dinâmico de Israel com a Igreja. A duplicação do número doze pode apontar para uma unidade espiritual que será concretizada escatologica e eclesiologicamente no fim dos tempos! (Cp. Ap 4.4,10; 5.5-14; 7.11-13; 11.16; 14.3; 19.4; Rm 9-11.)

MERRILL C. TENNEY. Enciclopédia da Bíblia. Editora Cultura Cristã. Vol. 1. pag. 297-299.

PRESBÍTERO. No AT. Os “anciãos do povo” ou os “anciãos de Israel" são frequentemente associados a Moisés quando este lidava com o povo (Ex 3.16; 4.29; 17.5; 18.12; 19.17; 24.1, 11; Nm 11.16). Posteriormente, administram o governo local (Jz 8.14; Js 20.4; Rt 4.2) e participam dos negócios da nação (1 Sm 4.3) mesmo depois da instituição da monarquia (1 Sm 8.4; 30.26; 2 Sm 3.17; 5.3; 1 Rs 21.8). Galgam nova preeminência durante o exilio (Jr 29.1; Ez 7.1; 14.1; 20.1) e depois da volta do exilio, estão associados tanto ao governador nas suas funções (Ed 5.9ss.; 6.7) quanto à administração local (Ed 10.14). Em si mesmos, têm certas funções jurídicas (Dt 22.15; 25.7ss.) e associam-se aos juizes, que provavelmente são escolhidos dentre os “anciãos" (ou “presbíteros”), para administração e execução da justiça (Dt 16.18; 21.2ss.; Ed 7.25; 10.14). Além disso, estão associados a Moisés e Arão na transmissão

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da palavra de Deus ao povo (Ex 3.14; 4.29; 19.7) e na representação do povo diante de Deus nas ocasiões grandiosas (Ex 17.5; 24.1; Nm 11.16). Cuidam dos preparativos para a páscoa (Ex 12.21).

Outras nações tinham anciãos (cf. Gn 50.7; Nm 22.7), o direito ao título estava ligado à idade, o respeito de que o indivíduo gozava, ou ao cargo específico ocupado na comunidade (cf. o alderman saxônico, o senator romano, a gerousia grega). O ancião em Israel obtinha inicialmente, sem dúvida, sua autoridade e seu status, bem como seu nome, da sua idade e da sua experiência.

No período dos macabeus, 0 título “anciãos de Israel" é aplicado aos membros do Sinédrio judaico que, segundo se considerava, tinha sido estabelecido por Moisés quando nomeou os setenta anciãos em Nm 11.16ss. No nível local, uma comunidade de 120 (cf. At 1.15) ou mais, podia nomear sete anciãos (Mishna, Sanhedrin 1.6). Estes eram chamados os “sete de uma cidade”, e é possível que os sete que foram nomeados em Atos 6 fossem considerados anciãos desse tipo (cf. D. Daube, The NT and Rabbinic Judaism, 237). Nos evangelhos, os anciãos estão associados com os escribas e com os sacerdotes principais que fizeram padecer Cristo (Mt 16.21; 27.1) e os apóstolos (At 6.12).

No NT. Os anciãos ou “presbíteros” (presbyteroi) aparecem já no início da vida da igreja, e assumem posição juntamente com os apóstolos, profetas e mestres. Em Jerusalém, estão associados a Tiago no governo da igreja local da maneira usada na sinagoga (At 11.30; 21.18), mas em associação aos apóstolos compartilham, também, do governo mais amplo, tipo Sinédrio, da igreja inteira (At 15.2,6,23; 16.4). Um apóstolo pode ser um presbítero (1 Pe 5.1).

Os presbíteros não aparecem em Antioquia durante a estada de Paulo (At 13.1), nem são mencionados nas primeiras epístolas dele. É possível que o governo eclesiástico fosse questão de importância secundária naquele período. Mesmo assim, Paulo e Barnabé, em sua primeira viagem missionária, promoveram a eleição de presbíteros em todas as igrejas que fundaram (At 14.23).

Os presbíteros aos quais Paulo dirigiu a palavra em Éfeso (At 20.17ss.) e aqueles aos quais 1 Pedro e Tlto falam, têm um lugar decisivo na vida da igreja. Além da sua função de humilde supervisão pastoral, deles depende, em grande medida, a estabilidade e a pureza do rebanho quando as tentações e crises se aproximam. Ocupam uma posição de autoridade e de privilégio que pode ser abusada. São co-participantes do ministério de Cristo entre 0 rebanho (1 Pe 5.1-4; At 20.28; cf. Ef 4.11)·,

É asseverado frequentemente que nas igrejas gentias 0 nome episkopos é usado como substituto de presbyteros, com significado idêntico. Parece que as palavras são intercambiáveis em At 20.17, 18 e Tt 1.5-9. Mas, embora todos os episkopoi sejam indubitavelmente presbyteroi, não fica claro se o inverso sempre se aplica. A palavra presbyteros indica principalmente o status de “ancião”, ao passo que episkopos denota a função de pelo menos alguns dos anciãos. Mas é possível que tenha havido “presbíteros” que não eram episkopoi.

Em 1 Tm 5.17, o ensinp é considerado uma função desejável do presbítero, e não somente a da supervisão. É provável que, quando os apóstolos, mestres e profetas, em suas viagens, já não podiam ministrar a toda a igreja, a função do ensino e da pregação recaísse sobre os presbíteros locais, e assim, desenvolver-se-ia o cargo de presbítero, e as qualificações dos presbíteros. Isso, por sua vez, pode ter levado a uma distinção dentro do presbiterado. A presidência do grupo local de presbíteros, tanto na disciplina da congregação, quanto na celebração da Ceia do Senhor, tenderia a ser um cargo permanente, exercido por um só homem.

O “presbítero” em 2 e 3 João refere-se meramente a alguém que gozava de alta estima dentro da igreja. Os vinte e quatro anciãos que com tanta freqüência aparecem nas visões do livro de Apocalipse são exemplos de como toda a autoridade deve adorar humildemente a Deus e ao Cordeiro (Ap 4.10; 5.8-10; 19.4). Deve-se notar que até mesmo esses presbyteroi, segundo parece, ministram no céu à igreja na terra (Ap 5.5, 8; 7.13).

Na História da Igreja. Na época da Reforma, Calvino entendeu que o cargo de presbítero era uma das quatro “ordens ou cargos” que Cristo instituíra para o governo normal da igreja, sendo que as outras eram: pastores, mestres e diáconos. Os presbíteros, como representantes do povo, eram responsáveis pela disciplina, lado a lado com os pastores ou bispos. Na Escócia, posteriormente, o presbítero recebia uma ordenação vitalícia, sem a imposição das mãos, e tinha 0 dever de examinar os candidatos à comunhão da igreja e de visitar os enfermos, sendo incentivado a ensinar. Surgiu a teoria, através de 1 Tm 5.17, de que os ministros e os demais presbíteros eram da mesma ordem, e que os ministros eram presbíteros quer ensinavam, e os demais, presbíteros que governavam. De modo global, no entanto, a Igreja Presbiteriana tem sustentado que há uma distinção entre a ordenação ao ministério e a ordenação ao presbiterado, sendo que o tipo de ordenação é determinado segundo a sua finalidade. O presbítero tem sido considerado representante do povo (sem, porém, ter sido nomeado pelo povo, e sem ser responsável diante deste) na organização dos assuntos da igreja, e tem cumprido muitas das funções que, no NT, são próprias do diaconato. O padrão da obra do presbítero dentro da igreja corresponde estreitamente àquele do “ancião do povo” no AT.

WALTER A. ELWELL. Enciclopédia HISTÓRICO-TEOLÓGICA DA IGREJA CRISTA. Editora Vida Nova.

  1. A liderança local.

O crescimento das igrejas, como fruto da evangelização e do discipulado, exige a delegação de atividades a pessoas que tenham condições de liderar o rebanho do Senhor Jesus (Tt 1.5,7). Os pastores não podem abarcar tudo para si, sob pena de não darem conta das inúmeras responsabilidades que a igreja local requer. Como a referência a presbíteros, no NT, sempre é feita no plural “presbíteros”, “bispos” ou “anciãos”, dá a entender que, em geral, o presbítero não agia isoladamente, mas como um corpo de ministros, ou de líderes, que cuidava da igreja local. “Sempre são citados no plural, isto é, não é mencionada uma só igreja onde houvesse apenas um presbítero (At 11.30; 15.2,4,6; 20.17; Tg 5.l4; 1 Pe 5.1).”

Certamente, pela inexistência de pessoas qualificadas com o dom ministerial de pastor, havia a necessidade de uma liderança, formada por um grupo de irmãos mais idosos, para cuidar da igreja local. Entende-se, assim, que os presbíteros têm um ministério de grande importância, auxiliando os pastores, designados por Deus para apascentarem e cuidarem da Igreja do Senhor sob seus cuidados.

Elinaldo Renovato. Dons espirituais & Ministeriais Servindo a Deus e aos homens com poder extraordinário. Editora CPAD. pag. 131.

Tt 1. 4,5,7. Tito, meu verdadeiro filho, segundo a fé comum: graça, misericórdia e paz, da parte de Deus Pai e da do Senhor Jesus Cristo, nosso Salvador (4). Em Atos dos Apóstolos, Tito não é mencionado entre os assistentes de Paulo, embora seja mencionado várias vezes em 1 Coríntios, Gálatas e 2 Timóteo. Ele era grego e provavelmente foi ganho para Cristo pelo ministério do apóstolo. Quando surgiu a controvérsia dos judaizantes, Lucas nos informa que os irmãos determinaram que “Paulo, Barnabé e alguns dentre eles subissem a Jerusalém aos apóstolos e aos anciãos sobre aquela questão” (At 15.2). Paulo nos fala (G1 2.3) que entre estes “alguns dentre eles” estava Tito (presumindo que se trate da mesma visita a Jerusalém). Mais tarde, este jovem aparece na segunda carta de Paulo aos Coríntios, onde há oito referências a ele, que o mostram como ajudante de confiança do apóstolo. Em 2 Timóteo 4.10, lemos que Tito estava em missão na Dalmácia. Na época da carta de Paulo a Tito, o jovem é o representante do apóstolo em Creta (ver Mapa 1), onde era evidentemente pastor da igreja cristã.

Paulo se dirige a Tito por meu verdadeiro filho, segundo a fé comum, expressão que é mais bem traduzida por “meu filho verdadeiramente nascido na fé que compartilhamos” (NEB). A bênção que se segue é de caráter tipicamente paulino, conferindo nota adicional de autenticidade a esta epístola: Graça, misericórdia e paz, da parte de Deus Pai e da do Senhor Jesus Cristo, nosso Salvador.

O apóstolo passa a tratar imediatamente da razão que o levou a escrever a carta. Notamos a falta de uma declaração de estima ou gratidão a Tito como ocorre em 2 Timóteo 1.3-5 (embora também não ocorra em 1 Timóteo). Por esta causa te deixei em Creta, para que pusesses em boa ordem as coisas que ainda restam e, de cidade em cidade, estabelecesses presbíteros, como já te mandei (5). Os dizeres dão a entender que fazia pouco tempo que Paulo estivera em Creta acompanhado com Tito que lhe servia de assistente. Não há registro histórico em Atos que fale desta campanha cretense. O Livro de Atos termina abruptamente com os acontecimentos finais da primeira prisão de Paulo em Roma. Nossa tese, que torna possível a autoria paulina das Epístolas Pastorais, é que o apóstolo foi liberto do primeiro aprisionamento e continuou o seu trabalho. Embora não haja relato dos anos finais da vida do apóstolo, teria havido tempo suficiente para a ampla evangelização da ilha de Creta. O fato de Tito ter sido encarregado de ordenar presbíteros... de cidade em cidade mostra a extensão dessa atividade. O ministério de Paulo em Creta havia terminado recentemente; mas o apóstolo deixou ali Tito, seu assistente, para completar a tarefa de organizar as igrejas. A linguagem de Paulo dá a entender que nem tudo estava bem nas igrejas cretenses e que parte da tarefa de Tito era corrigir o que estava errado.

Tito foi instruído a designar e ordenar presbitérios (ou “pastores”, BV) para as igrejas. Esta prática estava de acordo com o costume do apóstolo. Já na primeira viagem missionária, Lucas nos informa que, “havendo-lhes por comum consentimento eleito anciãos em cada igreja, orando com jejuns, os encomendaram ao Senhor em quem haviam crido” (At 14.23). Há diferenças nas instruções de Paulo entre 1 Timóteo e Tito. Na primeira, já havia bispos no exercício do cargo, ao passo que na última, provavelmente por ser algo novo na igreja cretense, era a primeira ordenação de presbitérios.

Porque convém que o bispo seja irrepreensível como despenseiro da casa de Deus, não soberbo, nem iracundo, nem dado ao vinho, nem espancador, nem cobiçoso de torpe ganância (7). O assunto desta lista adicional de qualificações é o bispo (no singular) e não os “presbíteros” (no plural). Barrett observa que “a mudança do plural (presbíteros) para o singular (bispo) é mais bem explicado não pela suposição de que em cada cidade havia um grupo de presbíteros e só um bispo, mas pela interpretação [...] de que, enquanto que presbítero descreve o cargo, bispo descreve sua função: Os presbíteros que você designar devem ter certas qualificações, pois o homem que exerce a supervisão tem de ser”1 não soberbo, nem iracundo, nem dado ao vinho, nem espancador, nem cobiçoso de torpe ganância.

A qualidade da irrepreensibilidade — “caráter inatacável” (6) — ocorre novamente, pois a responsabilidade do bispo é servir como despenseiro da casa de Deus (7). O termo despenseiro quer dizer, literalmente, “o administrador de uma casa ou família” (Kelly). O bispo era o gerente financeiro da igreja local e por isso, se por nenhuma outra razão, deve ser homem de extrema integridade.

O apóstolo alista cinco defeitos que devem estar visivelmente ausentes no bispo (7). São falhas de caráter que, caso sejam toleradas em um líder eclesiástico, lhe causarão ruína certa. O soberbo é alguém propenso a ser “arrogante” (BAB), opinioso e teimoso. Característica como esta constituiria alta traição do espírito do Mestre. O iracundo seria indivíduo esquentado, vingativo e totalmente falto de paciência (“impacientes”, BV), que é tão essencial ao servo de Cristo. Nem dado ao vinho (“beberrão”, BJ) é expressão que sempre nos deixa surpresos num contexto como este. Contudo, era um problema muito sério na igreja do século I. A viticultura era abundante em todos os lugares ao longo da bacia mediterrânea, e a tentação de beber vinho e, daí, ficar bêbado vinha de todos os lados. Nem espancador (“violento”, BAB, BJ, CH, NTLH, NVI, RA) indica a tendência à ação violenta ou arbitrária, que com certeza ocorria ocasionalmente entre os líderes locais na igreja primitiva. Nem cobiçoso de torpe ganância (“nem ávido por lucro desonesto”, NVI, cf. BJ, CH) é outra característica grosseira contra a qual Paulo adverte. Como guardião dos fundos monetários da igreja esta poderia se tornar fonte de tentação para o bispo.

  1. Glenn Gould. Comentário Bíblico Beacon. Editora CPAD. Vol. 9. pag. 543-546.

Tt 1.4 A Tito, meu autêntico filho segundo a fé em comum. Tito abraçou a fé em Jesus por meio da proclamação do apóstolo, representando um fruto real do serviço apostólico. Autêntico também pode ser a designação de um companheiro de luta na fé, desde que seja aprovado.

O relacionamento do apóstolo com Timóteo, o “filho amado”, certamente era mais íntimo, mas Tito também está bem próximo dele. Tanto mais surpreendente é que um colaborador tão próximo e íntimo de Paulo não seja mencionado em nenhuma passagem de At.

Sobre a fé em comum apoia-se o relacionamento espiritual entre pai e filho. Chama atenção a diferença em relação a 1Tm 1.2, onde simplesmente se lê: meu autêntico filho na fé. Será que a ênfase do que há em comum permite inferir uma maior independência de Tito, ou será que a intenção é enfatizar a posição comum de todos os que creem (cf. 1b: em consonância com a fé dos eleitos)? Tito representou o apóstolo com sucesso em uma questão complicada na igreja de Corinto, enquanto Timóteo praticamente teve de ser protegido dos coríntios.

Em outras ocasiões Paulo também escreve da “fé em comum”, compartilhada com todos os discípulos de Jesus; com todos eles participa da “salvação conjunta”. Entendida nesse sentido, a catolicidade, i. é, a validade geral ou participação geral na fé, representa uma preocupação central da Bíblia.

Tt 1.5 – Por esta causa, te deixei em Creta, para que pusesses em ordem as coisas restantes, bem como, em cada cidade, constituísses presbíteros, conforme te prescrevi.

Dessa frase pode-se concluir que Paulo e Tito evangelizaram juntos em Creta. Judeus de Creta estiveram em Jerusalém por ocasião do Pentecostes. Não se pode descartar que alguns deles aceitaram a fé em Jesus, o Messias, retornando a Creta como primícias da fé. Tais primeiros contatos podem ter aberto o caminho para uma posterior viagem missionária. O motivo direto da carta são os dois colaboradores mencionados em Tt 3.13, que viajam até Creta, entregando a missiva a Tito.

Na época da redação Paulo está livre (Tt 3.12). A situação é semelhante à de 1Tm: Timóteo deve organizar o necessário em Éfeso, e Tito em Creta. Tanto em 1Tm quanto em Tt a instrução oral é seguida por confirmação e complementação escritas, um procedimento que não é incomum para Paulo.

Tito também deixará a ilha. Por isso é necessário que as instruções sejam entregues por escrito às mãos dos irmãos colaboradores e co-dirigentes em Creta. Em 1Tm já se pressupõem formas e serviços eclesiais mais sólidos, em Creta parece existir um estágio anterior de constituição da igreja.

As coisas faltantes são aquilo que ainda falta para o desenvolvimento de uma igreja plenamente emancipada. O que Paulo deixou inconcluso é confiado a Tito para que este cuide da evolução posterior. O que Deus começou ele pretende levar à maturidade. Aqui não se tem em vista apenas um aperfeiçoamento em termos de organização! Já em 1Ts 3.10 Paulo escreve que deseja dirimir as falhas que ainda estão ligadas à fé. As igrejas devem chegar à aprovação na fé.

Tito recebe particularmente a incumbência de instituir presbíteros em cada cidade. Aparentemente a fé em Jesus se expandiu primeiramente nas cidades, ou as igrejas cresceram mais rapidamente nelas, de modo que se tornasse necessária a instalação de presbíteros. As aldeias e localidades das redondezas eram evangelizadas a partir das cidades. Em todos os lugares a instalação de servos para a igreja aconteceu com a participação dos membros da igreja. At 14.23 informa que Paulo e Barnabé retornaram a três cidades em que se haviam formado igrejas durante a primeira migração evangelizadora. Somente agora, na segunda estadia, elegem presbíteros em cada igreja, recomendando-os em conjunto com a igreja ao Senhor, mediante oração e jejum. A evangelização em Creta pode ter ocorrido de forma similar. Primeiramente Paulo e Tito viajaram em conjunto pela ilha, anunciando o evangelho de Jesus. Em uma segunda visita, pouco tempo depois, Tito (ele permaneceu na ilha, enquanto Paulo seguiu viagem) deve confirmar, em e com as jovens igrejas, presbíteros que se evidenciaram como agraciados e aprovados por Deus em vista de seu serviço aos fiéis.

Em todas as igrejas surgidas da atividade missionária de Paulo havia serviços eclesiais organizados desde o princípio, tão logo um grupo sólido de discípulos estivesse de fato formado. O NT não dá notícia de nenhuma igreja sem liderança. O estilo de liderança pode se configurar de formas muito distintas, porém nunca na forma de uma posição especial excludente ou de uma reivindicação legal consolidada.

Tt 1.7 O presidente deve ser irrepreensível como administrador de Deus: O presidente é um dos presbíteros e vem das fileiras deles, por isso é repetida para ele a característica decisiva: que seja irrepreensível! O singular não exclui a possibilidade de que houvesse vários presidentes em uma cidade, especialmente quando se formavam várias igrejas caseiras na mesma localidade. Ao contrário de 1Tm, não se mencionam aqui diáconos. Não se trata de listar todos os serviços na igreja e muito menos de instituir um cargo de bispo monárquico, nem de providenciar o ordenamento jurídico de cargos.

A prestação de serviços na administração de Deus acontece pela fé. Cada administrador presta contas do que faz e deixa de fazer. Na sequência são arrolados cinco vícios que o presidente deve evitar (v. 7), e depois ocorrem seis exigências, imprescindíveis para sua contribuição na edificação da igreja.

Não autocrático: usurpador, sem escrúpulos, caprichoso, teimoso. Um bom líder não imporá a si mesmo, não tentará avançar solitariamente e sem os irmãos co-responsáveis. O dirigente seja servo de todos, não seu comandante e senhor.

Não irascível: faz parte de autocrático. Quem considera a si mesmo capaz de tudo ou confia demais em si rapidamente perde a paciência com outros. Um valentão em breve se torna solitário, alguém que tem apenas seguidores submissos, mas não irmãos co-responsáveis.

Não dado ao vinho, não briguento, não ganancioso: Houve tentativas de explicar essas condições, de conotação óbvia, com os primórdios da missão e o baixo nível do entorno gentílico. Contudo demandas morais que parecem elementares não são cumpridas de forma óbvia. Quando as exigências básicas (aquilo que é fundamental e elementar) são apenas pressupostas, e não são constantemente propostas, examinadas e exercitadas, todo avanço permanece incerto e pode levar à auto-ilusão.

Hans Bürki. Comentário Esperança Cartas aos Tito. Editora Evangélica Esperança.

Tt 1.4 Tito, um grego, era um dos mais confiáveis e responsáveis cooperadores de Paulo. Como um verdadeiro filho, ele pode ter sido um dos convertidos de Paulo. Embora ele não esteja mencionado no livro de Atos, outras epístolas chamam a atenção para o fato de que Tito realizou diversas missões em nome de Paulo.

Paulo repetiu a sua saudação padrão (graça e paz) com uma ligeira modificação. A última palavra repete a idéia do versículo 3. Paulo usou a palavra “Salvador” tanto para Deus Pai como para Jesus Cristo, revelando, desta maneira, a sua compreensão da natureza de Deus e da obra de salvação (veja também 1.3; 2.10,13; 3.4,6).

Tt 1.5 Creta é uma ilha comprida (240 quilômetros) e estreita, situada no mar Mediterrâneo. Entre os seus habitantes, havia muitos judeus. Os primeiros convertidos foram provavelmente judeus cretenses que tinham estado em Jerusalém por ocasião do Pentecostes (At 2.11), mais de trinta anos antes de Paulo escrever esta carta. Talvez tivesse havido algum novo contato com Paulo quando ele esteve ali como prisioneiro, em sua primeira viagem a Roma, para ser julgado.

Posteriormente, ele e Tito retornaram para uma visita evangelística.

Aparentemente, Paulo não ficou muito tempo em Creta, de modo que deixou Tito, seu leal e capaz cooperador, para completar o trabalho de estabelecer o ensino correto e lidar com os falsos ensinadores, como também indicar presbíteros de cidade em cidade.

Paulo tinha indicado presbíteros em várias igrejas durante as suas viagens (At 14.23).

Ao retornar da primeira viagem missionária, Paulo dedicou um tempo extra para visitar novamente cada igreja e estabelecer a liderança de cada uma delas. Ele não podia permanecer em todas as igrejas, mas sabia que estas novas igrejas precisavam de fortes líderes espirituais.

Os homens escolhidos deveriam liderar as igrejas, ensinando a sã doutrina, ajudando os crentes a amadurecer espiritualmente, e capacitando-os a viver para Jesus Cristo, apesar da oposição. Os versículos seguintes fornecem as qualificações para os presbíteros.

Tt 1.7 A expressão “convém que o bispo seja irrepreensível” enfatiza que esta qualidade é essencial em qualquer pessoa que seja um despenseiro da casa de Deus. Os líderes da igreja que agem de maneira indigna e trazem acusações e reprovações sobre si mesmos também danificam o trabalho de Deus. As diretrizes de Paulo adquirem uma importância adicional no cenário de Creta, pois os cretenses eram conhecidos por terem má reputaçáo (veja 1.12). Às vezes, as diretrizes de liderança das Escrituras estarão em harmonia com os padrões predominantes para os líderes maduros em uma cultura, e em outras ocasiões, elas estarão em conflito.

Aparentemente, Tito devia ser prudente com os cretenses.

Uma armadilha da liderança é tornar-se soberbo. Mas o orgulho pode seduzir as emoções e obscurecer a razão, tornando um líder de igreja ineficiente. O orgulho e a arrogância foram a razão da queda do diabo, e ele usa o orgulho para apanhar outros. Além disto, uma pessoa iracunda irá falar e agir sem pensar, magoando as pessoas e danificando o trabalho e a reputação da igreja.

Estas três últimas proibições tinham importância especial para a busca de Tito de líderes da igreja na Creta do século I. Um líder de igreja não deve ser dado ao vinho nem espancador (frequentemente, o resultado de a pessoa ser iracunda ou dada ao vinho). Além disto, os líderes que Tito escolhesse deveriam servir por amor, e não por serem cobiçosos por dinheiro.

Comentário do Novo Testamento Aplicação Pessoal. Editora CPAD. Vol 2. pag. 552-554.

  1. As qualificações.

A missão do presbítero é de tanta importância que o Novo Testamento dedica vários textos a respeito das qualificações que se devem exigir dos obreiros que são escolhidos para essa função ministerial. Não é um “dom de Deus”, como já vimos no estudo sobre Efésios 4.11. Mas é um ministério, no sentido a que Paulo se refere, ao dizer que “há diversidade de ministérios” (1 Co 12.5).

“O papel dos oficiais da igreja era variável e flexível na época do Novo Testamento. Até o período patriótico primitivo, tais funções ainda não tinham sido padronizadas e regulamentadas”.4 Tendo em vista a origem do presbítero, como acentuado em item anterior, sua importância é indiscutível. E suas qualificações são das mais relevantes. Em sua escolha, segundo a Palavra de Deus, devem ser observadas algumas qualidades ou qualificações, com base no texto de Tito 1.6-9, que equipara o presbítero ao “bispo”'.

1) “Aquele que for irrepreensível”. O presbítero, ou bispo, deve ser uma pessoa de caráter cristão ilibado, íntegro, exemplar. Um “obreiro que não tem de que se envergonhar” (2 Tm 2.15).

2) “Marido de uma mulher Significa que o candidato ao presbitério ou ao episcopado deve ser um homem fiel à sua esposa. O renomado comentarista Matthew Henry, em seu Comentário Bíblico sobre o Novo Testamento, diz sobre ser “marido de uma mulher” o bispo não deve ser bígamo, tendo duas ou três mulheres, “de acordo com a prática pecaminosa comum daquela época, por uma imitação perversa dos patriarcas”.5

3) Que tenha familia ajustada. Paulo dá destaque especial à criação dos filhos do presbítero ou bispo (cf. 1 Tm 3.4,5).

4) “Não soberbo”. E sinônimo de “arrogante, orgulhoso, presunçoso”. Um presbítero não deve ser orgulhoso. Quando Jesus, Mestre dos mestres, e “Sumo Pastor”, lavou os pés dos discípulos, quis dar uma grande lição aos pastores, e aos presbíteros ou bispos. E bom lembrar que cargo ministerial não é sinônimo de grandeza espiritual (1 Pe 5.5).

5) “Nem iracundo”. Uma pessoa iracunda é raivosa, colérica, furiosa. Um presbítero deve ser pessoa que sabe refrear seus impulsos emocionais. A ira é a pior opção para ser cultivada. Um iracundo perde os melhores amigos e afasta a muitos de seu convívio. Jesus oferece um curso de mansidão (Mt 11.29). Há vaga para todos.

6) “Nem dado ao vinho”. Ou seja: não dado a fazer uso de bebida alcoólica (ver Ef 5.18). Não deve beber vinho embriagante, nem ser tentado ou atraído por ele, nem comer e beber com os ébrios (Mt 24.49). (1) A abstinência total de vinho fermentado era a regra para reis, príncipes e juizes, no Antigo Testamento (Pv 31.4-7)/’ Não há necessidade de o presbítero, bispo ou pastor tomar vinho. Um suco de uva puro tem as mesmas propriedades terapêuticas que o vinho, exceto o teor alcoólico.

7) “Nem espancador”. Ou não violento, agressivo. O obreiro precisa ter o fruto da temperança ou do domínio próprio, para não dar lugar a seu temperamento agressivo. O servo de Deus não deve guiar-se por seu temperamento, mas pelo Espírito Santo (G1 5.16). Alguém pode espancar outro com palavras, ou ferir com agressões verbais ou psicológica (cf. Jr 18.18). Sempre houve pastores grosseiros, prepotentes, alguns que cometeram “assédio moral” contra pessoas a seu redor. Isso é reprovável sob todos os aspectos. O presbítero ou bispo deve ser ordeiro, humilde, de bom trato para com todos.

8) “Nem cobiçoso de torpe ganância”. A ganância por bens materiais ou pelo poder tem sido a causa de muitos escândalos e descrédito contra o ministério pastoral. O apóstolo Pedro deu a mesma exortação aos presbíteros (1 Pe 5.2).

9) “Mas dado à hospitalidade”. O bispo deve ser hospitaleiro (Hb 13.2). Um presbítero, bispo ou pastor deve ser uma pessoa acolhedora; que sabe receber bem, com cortesia e amabilidade, qualquer pessoa, em sua casa, na igreja, ou em qualquer lugar. Não deve ser grosseiro nem fazer acepção de pessoas (At 10.34; Tg 2.1, 9).

10) “Amigo do bem”. O presbítero deve ter o fruto do Espírito da “benignidade”, que é a qualidade daquele que se dedica a fazer o bem (SI 37.27; G16.9, 10). Quem faz o bem colherá os frutos do que semeou.

11) “Moderado”. É sinônimo de “comedido, prudente, contido”. O presbítero ou o bispo deve ser uma pessoa assim, sem afetação, sem exibicionismo; ter uma vida sem exagero, seja na vida ministerial, seja na vida pessoal; sem ser radicalista ou liberalista, evitando os extremos. Não deve ser precipitado no falar, no agir, mas deve ter autocontrole em suas atitudes e ações. Deve ter o fruto do Espírito da temperança (G1 5.22).

12) “Justo”. É sinônimo de “imparcial, isento, neutro, justiceiro". Ê qualidade indispensável ao líder. O Sumo Pastor nos guia “pelas veredas da justiça por amor do seu nome” (SI 23.3). O presbítero ou bispo, que apascenta as ovelhas do Senhor, deve ter o mesmo cuidado, de ser justo e não praticar qualquer ato de injustiça. Nunca usar os “dois pesos e duas medidas”.

13) “Santo”. É qualidade e condição indispensável para que uma pessoa seja salva. Ser santo é ser separado ou consagrado para Deus. Um líder tem o dever de zelar pela santidade. Para isso precisa estar sempre exercitando o processo da “santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor” (Hb 12.14; 1 Pe 1.15).

14) “Temperante”. E qualidade de quem tem “temperança”, ou domínio próprio, autocontrole. Que sabe dominar seus impulsos e paixões, seja na área dos relacionamentos, na área afetiva, sexual, ou nos apetites carnais. O intemperante em qualquer área acaba prejudicando a si ou aos outros. O bispo ou presbítero precisa ser um exemplo na temperança.

Após enumerar as quatorze qualificações para a escolha de um presbítero ou bispo, Paulo diz a condição para que ele possa exercer sua nobre missão, de cuidar, zelar e alimentar o rebanho:

1) “Retendo firme a fiel Palavra, que é conforme a doutrina (1.9a)”. Para que todas as qualificações do ministro tenham valor é necessário que ele seja “exemplo dos fiéis, na palavra, no trato, na caridade, no espírito, na fé, na pureza” (1 Tm 4.12).

2) “Para que seja poderoso, tanto para admoestar com a sã doutrina como para convencer os contradizentes” (1.9b). Guardando ou retendo a “Fiel Palavra” de Deus, o líder tem autoridade para admoestar os que aceitam a “sã doutrina” e para “convencer os contradizentes”, ou opositores da liderança. Paulo sabia o que era esse tipo de gente (1 Tm 1.20; 2Tm 2.17; 4.14).

Para que as qualificações do presbítero ou bispo sejam completas, é interessante reunir as qualidades aqui estudadas com as da lista de Paulo a Timóteo, no capítulo 2.1-7. Uma complementa a outra.

Elinaldo Renovato. Dons espirituais & Ministeriais Servindo a Deus e aos homens com poder extraordinário. Editora CPAD. pag. 131-135.

Tt 1. 6-9. Paulo descreve o tipo de homens a ser selecionado para este cargo importante: Aquele que for irrepreensível, marido de uma mulher, que tenha filhos fiéis, que não possam ser acusados de dissolução nem são desobedientes (6). Estas qualificações que os presbíteros têm de possuir são semelhantes à lista de qualifieações para bispo em 1 Timóteo 3. Irrepreensível significa ter “caráter inatacável” (NEB), “integridade inquestionável” (CH). Esta é qualidade importantíssima. O ministro cristão deve ser pessoa que evita não só o mal, mas a própria aparência do mal. Sob todos os aspectos de conduta, ele tem de estar acima de repreensão. Suas relações matrimoniais não devem ter a mínima nódoa de escândalo. Muitos na igreja primitiva consideravam que marido de uma mulher era proibição de casar-se de novo por qualquer razão. A referência óbvia aqui é a casamentos duplos. As tradições cristãs de nossos dias não desaprovam o crente casar-se de novo após o falecimento da primeira esposa. Devemos tratar esta área com toda a discrição. O escândalo do divórcio tem envenenado tão completamente o fluxo da ordem social de nossos tempos, que devemos ser extremamente sensatos e cuidadosos nesta questão de segundo casamento, “para que o nosso ministério não caia em descrédito” (2 Co 6.3, NVI).

Que tenha filhos fiéis (6) é expressão que requer algumas considerações. Seu verdadeiro significado foi capturado pela tradução: “que tenha filhos crentes” (BAB, RA; cf. NVI). A estipulação registrada em 1 Timóteo 3.4 diz apenas: “Tendo seus filhos em sujeição, com toda a modéstia”. Mas aqui Paulo vai mais longe, insistindo que em Creta os homens separados para o cargo de presbítero têm de ser bem-sucedidos em entregar a fé cristã aos seus filhos. E verdade que nenhum pai pode controlar ou determinar as decisões morais e espirituais dos filhos. As vezes, apesar de nossos melhores e mais sinceros esforços, os filhos no livre exercício da vontade fazem escolhas que causam profundo sofrimento para os pais. Mas não há nada que recomende a sinceridade e devoção de um ministro piedoso que o fato de que seus filhos estão seguindo-o como ele segue Cristo.

Que não possam ser acusados de dissolução nem são desobedientes (6) é, de certo modo, alternativa a fiéis. Esta tradução esclarece a frase: “Não sujeitos à acusação de serem libertinos ou insubordinados” (RSV; cf. CH, NVI).

Porque convém que o bispo seja irrepreensível como despenseiro da casa de Deus, não soberbo, nem iracundo, nem dado ao vinho, nem espancador, nem cobiçoso de torpe ganância (7). O assunto desta lista adicional de qualificações é o bispo (no singular) e não os “presbíteros” (no plural). Barrett observa que “a mudança do plural (presbíteros) para o singular (bispo) é mais bem explicado não pela suposição de que em cada cidade havia um grupo de presbíteros e só um bispo, mas pela interpretação [...] de que, enquanto que presbítero descreve o cargo, bispo descreve sua função: Os presbíteros que você designar devem ter certas qualificações, pois o homem que exerce a supervisão tem de ser”1 não soberbo, nem iracundo, nem dado ao vinho, nem espancador, nem cobiçoso de torpe ganância.

A qualidade da irrepreensibilidade — “caráter inatacável” (6) — ocorre novamente, pois a responsabilidade do bispo é servir como despenseiro da casa de Deus (7). O termo despenseiro quer dizer, literalmente, “o administrador de uma casa ou família” (Kelly). O bispo era o gerente financeiro da igreja local e por isso, se por nenhuma outra razão, deve ser homem de extrema integridade.

O apóstolo alista cinco defeitos que devem estar visivelmente ausentes no bispo (7). São falhas de caráter que, caso sejam toleradas em um líder eclesiástico, lhe causarão ruína certa. O soberbo é alguém propenso a ser “arrogante” (BAB), opinioso e teimoso. Característica como esta constituiria alta traição do espírito do Mestre. O iracundo seria indivíduo esquentado, vingativo e totalmente falto de paciência (“impacientes”, BV), que é tão essencial ao servo de Cristo. Nem dado ao vinho (“beberrão”, BJ) é expressão que sempre nos deixa surpresos num contexto como este. Contudo, era um problema muito sério na igreja do século I. A viticultura era abundante em todos os lugares ao longo da bacia mediterrânea, e a tentação de beber vinho e, daí, ficar bêbado vinha de todos os lados. Nem espancador (“violento”, BAB, BJ, CH, NTLH, NVI, RA) indica a tendência à ação violenta ou arbitrária, que com certeza ocorria ocasionalmente entre os líderes locais na igreja primitiva. Nem cobiçoso de torpe ganância (“nem ávido por lucro desonesto”, NVI, cf. BJ, CH) é outra característica grosseira contra a qual Paulo adverte. Como guardião dos fundos monetários da igreja esta poderia se tornar fonte de tentação para o bispo.

Para compensar esta lista de cinco defeitos a serem evitados, Paulo faz uma lista de seis virtudes a serem cultivadas pelos líderes da igreja: Mas dado à hospitalidade, amigo do bem, moderado, justo, santo, temperante (8). Na lista de Paulo das qualificações de bispo registrada em 1 Timóteo 3.2 consta o dever da hospitalidade, quesito repetido aqui. Na função de líder da igreja, tornou-se responsabilidade do bispo receber em casa os apóstolos e evangelistas visitantes que em suas viagens passassem por ali. Só nos tempos atuais o “quarto excedente” na casa foi substituído por hotéis para o alojamento de convidados. A hospitalidade cretense do século I era recurso importante para o líder da igreja.

Amigo do bem (8) tem o significado literal de “amante do bem” ou “reto” (“amante da bondade”, RSV; “bondoso”, BJ). Esta qualidade nos lembra a advertência de Paulo em Filipenses 4.8: “Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai”. Seguir esta instrução é ser amante da bondade, característica que o ministro da igreja de Cristo deve se sobressair em excelência.

O termo grego traduzido pela palavra moderado é de significação muito próxima de temperante (8) que consta nesta mesma lista de virtudes. Ambos os termos sugerem autodomínio ou autocontrole (“controlado”, CH; “domínio próprio”, NVI; “domínio de si”, RA), a habilidade de lidar objetivamente com situações difíceis sem se deixar influenciar por preconceito. Barclay, em sua tradução, prefere a palavra “prudente” (NTLH), e cita a definição que Trench dá ao termo: “Controle total sobre as paixões e desejos, de forma que elas não recebam outras concessões além do que a lei e a reta razão admitirem e aprovarem”.2 As qualidades denotadas pelas palavras justo e santo mostram idéias estritamente religiosas. Mas é provável que devamos entender justo não como referência à posição do homem diante de Deus, por ter sido justificado pela fé pela graça, mas à sua habilidade de tratar com correção seus semelhantes, de administrar seu oficio com justiça escrupulosa e integridade inatacável. O termo santo é traduzido por “devoto” (NEB), conotando a qualidade de piedade (cf. “piedoso”, AEC, BJ, RA), a qualidade da relação pessoal afetuosa e terna com Cristo. Mas Barclay afirma que o termo conota muito mais, “pois descreve o homem que reverencia as decências fundamentais da vida, as coisas que voltam além de qualquer lei ou regulamento feito pelo homem”.3

O apóstolo introduz no versículo 9 uma exigência adicional: Retendo firme a fiel palavra, que é conforme a doutrina, para que seja poderoso, tanto para admoestar (“exortar”, BAB, RA) com a sã doutrina como para convencer os contradizentes. Este é um tema que aparece em 1 Timóteo, embora não com todo este grau de ênfase. Em 1 Timóteo 5.17, Paulo destaca os presbíteros que “trabalham na palavra e na doutrina” como “dignos de duplicada honra”. Mas aqui, na Epístola a Tito, a competência nesta área é de todos os presbíteros. É a um ministério como este que Deus chama os homens quando os convoca a ir e pregar. E responsabilidade do pregador “oferecer Cristo aos homens”, como Carlos Wesley gostava de dizer. Neste verso, ele descreve liricamente esta tarefa central de pregar:

Ofereço-lhe meu Salvador;

Amigo de publicanos e Advogado:

Seus méritos e morte, ele advoga por você;

E intercede com Deus pelos pecadores na terra*

Mas pregar Cristo e oferecê-lo às pessoas é conhecer seguramente a Palavra de Deus relativa a Cristo, mantê-la em consideração reverente e declarar sua verdade às pessoas. Nestas Epístolas Pastorais, Paulo está vitalmente interessado na sã doutrina. Por essa época, a mensagem da igreja tomara forma em credos e fórmulas batismais. Vemos fragmentos dessas declarações de credo afloradas nas cartas a Timóteo. Cada nova geração de líderes cristãos tem a necessidade de declarar novamente as doutrinas básicas da fé cristã e justificá-las na mente e consciência dos que as ouvem. Mas a sã doutrina também tem preceitos éticos, que mostram como todos os cristãos, homens e mulheres, moços e velhos, escravos e livres, devem viver em um mundo que rejeita Cristo. Tudo isto faz parte da tarefa de admoestar e convencer os contradizentes — os que negam e contradizem a verdade.

  1. Glenn Gould. Comentário Bíblico Beacon. Editora CPAD. Vol. 9. pag. 545-547.

Tt1 1.6 Paulo descreveu resumidamente algumas qualidades que um presbítero deveria ter. Ele tinha dado a Timóteo um conjunto de instruções semelhante para a escolha de líderes na igreja de Éfeso (veja 1 Tm 3.1-7; 5.22). Observe que a maioria das qualificações envolve caráter, e não conhecimento ou talento. O modo de vida de uma pessoa e os seus relacionamentos são uma janela para o seu caráter. Tenha em conta estas qualidades quando avaliar pessoas para posições de liderança em sua igreja. É importante ter líderes que possam efetivamente pregar a Palavra de Deus, mas, ainda mais importante, eles devem viver de acordo com a Palavra de Deus e ser exemplos para que os outros sigam.

A primeira qualidade é ser irrepreensível.

Um presbítero não deve apresentar conduta que possa ser base para qualquer tipo de acusação. Ele estava acima de qualquer crítica. Novamente, a questão aqui não é que os líderes não possam ser acusados, mas que, quando acusados, a sua vida prove a falsidade da acusação.

Ser marido de uma mulher significa que um líder de igreja não deve ser promíscuo, mas sim fiel no seu casamento. Isto não impede uma pessoa que não seja casada de se tornar um líder. Filhos crentes que não são acusados de dissolução nem são desobedientes mostrariam que o líder da igreja provou que pode ser líder na sua própria casa. Os filhos de um presbítero devem receber instrução espiritual e devem ser fiéis. Isto provará que os líderes se preocupam com o ensino da doutrina correta e com a disciplina dos outros.

Obviamente, aqueles cujos filhos são rebeldes. insubordinados e se recusam a obedecer não são apropriados para a importante posição de liderar o povo de Deus. A maneira como vivem os filhos de uma pessoa atesta como a vida cristã é praticada em casa.

Tt 1.7 A expressão “convém que o bispo seja irrepreensível” enfatiza que esta qualidade é essencial em qualquer pessoa que seja um despenseiro da casa de Deus. Os líderes da igreja que agem de maneira indigna e trazem acusações e reprovações sobre si mesmos também danificam o trabalho de Deus.

As diretrizes de Paulo adquirem uma importância adicional no cenário de Creta, pois os cretenses eram conhecidos por terem má reputação (veja 1.12). Às vezes, as diretrizes de liderança das Escrituras estarão em harmonia com os padrões predominantes para os líderes maduros em uma cultura, e em outras ocasiões, elas estarão em conflito.

Aparentemente, Tito devia ser prudente com os cretenses.

Uma armadilha da liderança é tornar-se soberbo. Mas o orgulho pode seduzir as emoções e obscurecer a razão, tornando um líder de igreja ineficiente. O orgulho e a arrogância foram a razão da queda do diabo, e ele usa o orgulho para apanhar outros. Além disto, uma pessoa iracunda irá falar e agir sem pensar, magoando as pessoas e danificando o trabalho e a reputação da igreja.

Estas três últimas proibições tinham importância especial para a busca de Tito de líderes da igreja na Creta do século I. Um líder de igreja não deve ser dado ao vinho nem espancador (frequentemente, o resultado de a pessoa ser iracunda ou dada ao vinho). Além disto, os líderes que Tito escolhesse deveriam servir por amor, e não por serem cobiçosos por dinheiro.

Tt 1.8 Depois de apresentar as características que um líder de igreja não deve ter, Paulo apresenta três qualidades positivas. A hospitalidade tinha uma importância fundamental nesta cultura. Ordenava-se que os crentes fossem hospitaleiros (veja 3 João), de modo que os seus líderes deviam ser dados à hospitalidade, revelando devoção e preocupação pelo bem estar de outros. Paulo insistiu que os líderes deviam ser conhecidos por serem amigos do bem. Uma pessoa assim exibe esta bondade no campo espiritual quando vive de maneira moderada e é justa com os outros. Um crente que é santo provavelmente também será temperante, tendo uma vida disciplinada, retratando uma pessoa que, como um atleta, está constantemente “em treinamento” na sua vida cristã e no seu ministério. (Veja a observação sobre 1 Timóteo 3.2, para informações adicionais sobre “temperança” ou “auto-controle”.)

Tt 1.9 O líder da igreja deve satisfazer exigências morais e espirituais na sua vida pessoal, e ser confiável na compreensão e no ensino da palavra que lhe foi ensinada. A última expressão, na verdade, vem em primeiro lugar no texto em grego, por uma questão de ênfase. A mensagem, como tinha sido ensinada pelos apóstolos, era a mensagem fiel que os líderes da igreja devem ensinar à sua congregação. Eles devem ser firmes e poderosos, para poderem admoestar os outros com a sã doutrina e mostrar o erro dos que são contra esse ensino.

Os pastores devem cumprir uma função positiva e outra negativa ao lidar com a verdade.

Eles devem incentivar, pregando, apoiando e reforçando as pessoas que seguem a verdade. Mas eles também devem confrontar e refutar as ideias falsas. Líderes confiantes, com determinação, cornem, e uma mensagem irrefutável, estariam em um contraste completo com o modo de vida, as características de personalidade e os falsos ensinadores cretenses (descritos nos versículos seguintes).

Comentário do Novo Testamento Aplicação Pessoal. Editora CPAD. Vol 2. pag. 553-554.

LIDERES ORDENADOS E QUALIFICADOS (Tt 1:5-9)

Um dos motivos pelos quais Paulo deixou Tito na ilha de Creta foi para que organizasse as congregações locais, "[pondo] em ordem as coisas restantes". Essa expressão é um termo médico e se refere a endireitar um membro torto. Tito não era o ditador espiritual da ilha, mas sim o representante apostólico oficial de Paulo, com autoridade para realizar sua obra. Fazia parte da política de trabalho de Paulo ordenar presbíteros nas igrejas que começava (At 14:23), mas o apóstolo não havia ficado tempo suficiente em Creta para ordenar esses líderes.

Tito 1:6-8 apresenta uma série de qualificações já discutidas em nosso estudo sobre 1 Timóteo 3:2, 3: "irrepreensível, esposo de uma só mulher, temperante, sóbrio, modesto, hospitaleiro, apto para ensinar; não dado ao vinho, não violento, porém cordato, inimigo de contendas, não avarento". O fato de esses critérios aplicarem-se aos cristãos da ilha de Creta, bem como àqueles da cidade de Éfeso, comprova que o padrão de Deus para os líderes não varia. Tanto as igrejas das cidades grandes quanto aquelas das cidades pequenas precisam de pessoas piedosas nos cargos de liderança.

Vejamos, agora, outras nove qualificações.

"Que tenha filhos crentes (v. 6b). Os filhos dos presbíteros devem ser cristãos. Afinal, se um servo de Deus não pode ganhar os próprios filhos para Cristo, como espera ser bem-sucedido com os de fora?

Trata-se do mesmo princípio que Paulo enfatiza a Timóteo (1 Tm 3:5): a vida e o serviço cristãos devem começar no lar. Os filhos dos presbíteros não apenas devem ser salvos, mas também ser bons exemplos de obediência e de dedicação. Caso pudessem ser acusados de "dissolução" [vida desregrada] ou "insubordinação" [desobediência, incapacidade de se sujeitar à autoridade], desqualificariam o pai para o presbiterato. É evidente que isso se aplica aos filhos que ainda vivem com a família sob a autoridade do pai.

É comum cristãos novos na fé sentirem o chamado para o ministério e o desejo de ser ordenados mesmo antes de terem firmado sua família na fé. Quando os filhos são pequenos, não se trata de um problema sério, mas para os filhos mais maduros, pode ser um grande choque ver que, de repente, sua família tornou-se "religiosa"! O pai sábio ganha a própria família para Cristo e lhes dá a oportunidade de crescer antes de ir para o seminário. Teríamos menos desastres no ministério, se essa política fosse seguida com mais frequência.

"Despenseiro de D eu s" (v. 7a). Um despenseiro não possui coisa alguma; antes, administra tudo o que seu senhor lhe confia.

Talvez o despenseiro {ou "mordomo") mais conhecido da Bíblia seja José, que tinha controle absoluto sobre todos os negócios de Potifar (Gn 39:1-9). A característica mais importante do despenseiro é sua fidelidade (Mt 25:21; 1 Co 4:1, 2). Deve usar o que lhe é confiado para o bem e para a glória de seu senhor, não para os próprios interesses (ver Lc 16:1-13).

O presbítero não deve jamais dizer: "Isto é meu!" Tudo o que ele tem vem de Deus (Jo 3:27) e deve ser usado para Deus. Seu tempo, seus bens, suas ambições e talentos lhe foram dados como empréstimo pelo Senhor, e ele deve ser fiel ao usar todos esses recursos para honrar a Deus e edificar a igreja.

É evidente que todos os cristãos, não apenas os pastores, devem ser despenseiros fiéis!

"Não arrogante" (v. 7b). Um presbítero não deve ser inflexível, sempre fazendo pressão para que sua vontade prevaleça. Por certo, os membros da igreja devem respeitar e seguir a liderança do presbítero, mas devem estar certos de que ele é, de fato, um líder, não um ditador. Um pastor inflexível é arrogante, não aceita as críticas e sugestões dos membros da sua igreja e impõe sua vontade em todas as coisas.

"Não ira scível" (v. 7c). Não deve se irritar com facilidade. Existe uma ira justa contra o pecado (Ef 4:26), mas grande parte de nossa ira é injusta e dirigida contra pessoas.

O homem reto deve irar-se diante da injustiça.

Como diz um conselho sábio: "A calma é preciosa demais para ser perdida".

"Amigo do b em " (v. 8a). Isso inclui a amizade com pessoas boas e o gosto por bons livros, boa música, boas causas e muitas outras coisas boas. O homem bom é aquele que tem um coração bom e se cerca de coisas boas. É difícil crer que um servo consagrado de Deus se envolveria deliberadamente com coisas nocivas a ele e a sua família.

"Justo" (v. 8b). Uma boa tradução para esse adjetivo é "direito". Deve ser um homem de integridade, fiel a sua palavra e que pratica o que prega. Sua conduta é reta.

"Piedoso" (v. 8c). Esse termo dá a ideia de pureza e de santidade. "Sede santos, porque eu sou santo" (1 Pe 1:16). O radical da palavra "santo" significa "diferente". Os cristãos são diferentes dos pecadores perdidos, pois, pela graça de Deus, são novas criaturas (2 Co 5:17).

"Que tenha domínio de si" (v. 8d). Trata-se de uma referência ao autocontrole e se aplica aos desejos e às ações do homem. Um termo sinônimo é "disciplinado". O pastor deve ter disciplina quanto ao uso de seu tempo, a fim de fazer todo o seu trabalho. Deve ter disciplina quanto a seus desejos, especialmente quando membros bem-intencionados tentam empanturrá-lo com bolo e café!

Deve ter a mente e o corpo sob controle, sujeitando-se ao Espírito Santo (Gl 5:23, ter "domínio próprio").

"Apegado à palavra fie l" (v. 9). Paulo gostava de Usar o termo fiel (ver 1 Tm 1:15; 4:9; 2 Tm 2:11; Tt 3:8). A Palavra de Deus é fidedigna, pois Deus não pode mentir (Tt 1:2). Uma vez que a palavra é fiel, os que ensinam e pregam a Palavra também devem ser fiéis. Paulo volta a falar da sã doutrina que vimos em 1 Timóteo 1:10. É a doutrina salutar, que promove crescimento espiritual.

Assim, os presbíteros têm dois ministérios com respeito à Palavra de Deus: (1) edificar a igreja pela sã doutrina; e (2) rejeitar os falsos mestres que espalham doutrinas perniciosas. O membro ingênuo que declara: "Não quero doutrinas; prefiro devocionais práticas!", não sabe o que está falando. Sem a verdade (ou seja, sem a doutrina bíblica), não há ajuda nem saúde espirituais. A menção aos que se opõem à verdadeira doutrina leva Paulo à terceira responsabilidade de Tito.

WIERSBE. Warren W. Comentário Bíblico Expositivo. N.T. Vol. II. Editora Central Gospel. pag. 338-340.

I Tm 3.1 A palavra bispo, também traduzida como ancião, indicando o episcopado, referia-se a um pastor ou a qualquer pessoa que exercesse uma posição de supervisão. O Novo Testamento usa diversas palavras para se referir aos líderes da igreja; as mais comuns são: apóstolo, presbítero, bispo, ancião, e diácono. A princípio, o cargo de “apóstolo” referia-se somente aos Doze e poucos outros, como Paulo, mas a palavra veio a ser usada em um sentido menos técnico para os representantes da igreja (veja 2 Co 8.23; Fp 2.25). Os bispos eram líderes em congregações específicas, e as palavras eram usadas alternadamente nas cartas de Paulo.

Eles eram os pregadores ou ensinadores. Os diáconos eram os administradores nestas primeiras igrejas - lidavam com as pessoas, a administração, as finanças etc.

Aparentemente, havia uma palavra (ou ensino) trazida pela liderança da igreja, e Paulo a citou aqui como sendo fiel (ou verdadeira).

É bom desejar ser um líder espiritual. Desejar significa “dirigir o coração em direção a alguma coisa”. A liderança é uma excelente obra. Paulo destacou a sua importância. No entanto, como ele iria mostrar, os padrões são elevados.

I Tm 3. 2 Paulo enumerou diversas qualificações para um bispo. Ele deve viver uma vida irrepreensível, o que significa que ele não deve ter falhas no seu comportamento que possam ser base pata qualquer tipo de acusação. Ele deve ser irrepreensível. Esta palavra serve como um resumo geral do seu caráter. Um líder na igreja deve ter uma boa reputação entre os crentes. A liderança define as bases. O que vem a seguir são os tijolos que edificam sobre aquela reputação.

A qualificação “marido de uma mulher” levou a diversas interpretações. Alguns dizem que ela indica que ele deveria ser casado. Esta interpretação ganha força pelo fato de que os falsos ensinadores proibiam o casamento (4.3). No entanto, tanto Paulo como Timóteo não eram casados. Se Paulo ensinasse que um líder devia ser casado, ele mesmo não poderia liderar e estaria contradizendo as suas instruções em 5.14 e I Coríntios 7.25-33. Provavelmente, o líder, se fosse casado, deveria ser um homem de uma única mulher, posicionando-se de uma forma contrária aos padrões morais presentes na cultura pagã de Éfeso. A Bíblia rejeita o casamento por conveniência e exige fidelidade e participação na única carne que se cria quando o marido se une á sua esposa (veja Gn 2.24; E f 5.22-33).

Que ele seja temperante ou vigilante, era outra maneira de dizer que um líder deveria possuir um discernimento firme e equilibrado, ou até mesmo bom senso. Cada uma destas qualidades é exigida dos líderes, mas elas devem ser o objetivo de todos os crentes.

Um líder da igreja deve ser sóbrio, o que significa que a sua vida deve estar marcada pela moderação, por limites, sem nada extremo ou excessivo, com ausência de extravagâncias. Nós usamos o termo “equilibrado” para indicar que este líder possui a ênfase apropriada em cada uma das prioridades da sua vida.

Ser honesto, ou ter uma boa reputação, refere-se ao respeito social básico – um comportamento normalmente digno. A palavra grega deriva de kosmos, “o mundo ou universo”, e retrata uma pessoa que vive em harmonia com a maneira como Deus criou o mundo.

A hospitalidade era amplamente enfatizada nas culturas do Oriente Médio e no Antigo Testamento (veja Êx 22.21). Os crentes sáo instruídos a serem hospitaleiros (Hb 5.10; 13.2; I Pe 4.9; 3 Jo 5), de modo que um líder também deveria estar disposto a hospedar pessoas na sua casa.

Os líderes cristãos devem estar aptos para ensinar. Uma das tarefas mais importantes de qualquer líder de igreja é ensinar as Escrituras aos membros da congregação. O líder deve entender e ser capaz de transmitir as verdades profundas das Escrituras, como também lidar com aqueles falsos pregadores ou ensinadores que as tratam de maneira inadequada.

I Tm 3.3 Um bispo não deve ser dado ao vinho, por motivos óbvios. Muitas destas qualidades podem ter caracterizado os falsos ensinadores, que provocavam brigas na igreja (veja 6.3,4).

Ele não deve ser violento ou espancador. Uma pessoa violenta é uma pessoa que ofende. A ofensa pode assumir muitas formas (verbal, física, sexual, e até mesmo espiritual), mas nasce de um profundo desrespeito pelos demais. Pode estar envolvida também uma doença mental. Uma pessoa assim tende a ser defensiva, insegura, e insensível. Uma pessoa com um histórico de batalhas verbais pode achar difícil liderar eficientemente. Uma pessoa assim não deve ser escolhida para a liderança.

Em contraste, o bispo deve ser moderado e não contencioso. Esta pessoa está livre da aspereza, da severidade, e da violência. Um líder cristão não ser avarento, ou amar o dinheiro (veja 6.5-10). Os líderes devem ter uma atitude adequada para lidar com as finanças da igreja. Isto afeta o uso ético dos fundos da igreja e a administração de programas apropriados pata arrecadação de dinheiro. Muitos possíveis líderes combinam o amor ao dinheiro com uma natureza contenciosa e acabam brigando na igreja por causa de assuntos financeiros. Uma pessoa assim não deve ser escolhida para liderar.

I Tm 3.4,5 As qualificações tanto dos bispos como dos diáconos dependem da capacidade de cuidar da sua própria casa (veja também 3.12). Não é absolutamente necessário que um bispo seja casado ou tenha filhos. No entanto, se este for o caso, ele deve governar bem a sua própria casa. A palavra “governar” significa uma administração misericordiosa, que traz direção e orientação (veja I Ts 5.12; 1 Tm 5.17), sem um controle rígido, cruel, tirânico, e autoritário. Este tipo de liderança familiar reflete a  correspondência entre a igreja e o lar vista em Efésios 5.28-6.9.

Faz sentido que Paulo use este requisito, pois ninguém pode conduzir um lar eficientemente sem amor e firmeza, misericórdia e diretrizes. E, se os pais não exemplificam o que ensinam, dificilmente as crianças seguirão as diretrizes, exceto sob pressão. Existem dois pensamentos nesta frase: por um lado, embora seja verdade que os filhos devam respeitar e obedecer aos seus pais, o respeito e a obediência são subprodutos de uma liderança responsável em casa. A melhor maneira de ver a capacidade de uma pessoa de lidar com uma grande responsabilidade é ver o seu desempenho com uma responsabilidade pequena. A capacidade de governar a sua casa é uma base de treinamento para a capacidade de um homem de administrar a família de Deus, que está reunida na igreja. O mesmo amor, compaixão, firmeza e misericórdia são necessários para as duas tarefas.

I Tm 3.6 Os novos crentes devem se tornar seguros e fortes na fé antes de assumirem posições de liderança na igreja. Frequentemente, quando está precisando desesperadamente de obreiros, a igreja coloca um neófito prematuramente em uma posição de liderança. Os novos crentes devem tomar parte no ministério de Deus, mas não devem ser colocados em posições de liderança até que estejam firmemente enraizados na sua fé, com um modo de vida solidamente cristão e um conhecimento da Palavra de Deus. De outra maneira, o novo crente, ensoberbecendo' Se, cairá na condenação do diabo. A referência ao diabo ensina que, da mesma maneira como Satanás caiu, por causa do seu orgulho, assim também o perigo do orgulho espreita os novos crentes a quem é dada alguma responsabilidade antes que estejam prontos para assumi-la. Os novos crentes que são promovidos muito rapidamente podem ser alvos fáceis para a poderosa tentação do diabo: o orgulho. O orgulho pode seduzir as emoções e ofuscar a nossa razão. Pode tornar aqueles que são imaturos suscetíveis à influência de pessoas inescrupulosas.

I Tm 3.7 Exigir que os líderes tenham uma boa reputação com as pessoas de fora da igreja (isto é, os não-crentes da comunidade) dava à igreja em geral uma boa reputação na comunidade. Os líderes da igreja, sendo as pessoas mais visíveis da igreja no mundo secular, fariam bem em manter os mais altos padrões e a melhor reputação. Ver diversos líderes de igreja nas manchetes nos últimos anos devido à evasão de impostos, uso ilícito de fundos e escapadas sexuais certamente danifica a credibilidade da igreja. Os líderes de igreja que seguem os conselhos de Paulo evitam que a sua igreja enfrente ofensas desnecessárias. Do contrário, o resultado é ficar desmoralizado e cair em afronta e no laço do diabo, juntamente com os crentes e os não-crentes. Este laço pode ser o fracasso moral e o julgamento resultante em que um homem escolhido para ser líder irá cair, ou pode significar a armadilha da tentação que leva ao orgulho, conforme mencionado no versículo 6. Quando os líderes cristãos têm uma reputação ruim, isto impede que os incrédulos venham a Cristo.

Comentário do Novo Testamento Aplicação Pessoal. Editora CPAD. Vol 2. pag. 494-496.

Esta é uma palavra fiel: Se alguém deseja o episcopado, excelente obra deseja (1). A primeira vista, a observação com a qual apóstolo inicia esta seção da carta — esta é uma palavra fiel — é igual à declaração dita anteriormente em 1.15: “Esta é uma palavra fiel”. Mas a igualdade é meramente aparente. A primeira observação deu início a um ensino muito importante sobre a obra redentora de Cristo. Mas aqui não há tal declaração solene de fé. Ainda que os estudiosos não tenham chegado a um acordo quanto a este ponto, é provável que esta tradução seja a correta: “Há um dito popular que diz: Aspirar à liderança é ambição honrosa’” (NEB; cf. AEC, BJ, BV).

A palavra episcopado é um tanto enganosa para os leitores de hoje, porque para nós o cargo de epíscopo ou bispo tem associações eclesiásticas. Desejar este cargo seria buscar promoção no ministério cristão. Estamos devidamente certos em reputar que tal ambição é indigna da pessoa cuja vida é dedicada ao serviço de Cristo. Como ressaltamos na Introdução, o termo “bispo”, tradução da palavra grega episkopos, veio originalmente da organização das sociedades seculares e tem o significado básico de “inspetor” ou “líder”. O apóstolo está dizendo que é uma ambição digna a pessoa desejar um lugar de serviço responsável entre o povo de Deus. A declaração que Paulo cita era um provérbio bem conhecido na época, o qual ele usava como introdução do assunto que desejava tratar.

Convém, pois, que o bispo seja irrepreensível, marido de uma mulher, vigilante, sóbrio, honesto, hospitaleiro, apto para ensinar. No total, há 15 qualificações estipuladas pelo apóstolo, sete das quais ocorrem no versículo 2. E importante que a primeiríssima destas seja a irrepreensibilidade. O significado da palavra é “acima de repreensão”, “de reputação irrepreensível” (cf. CH), “de caráter impecável”, “que ninguém possa culpar de nada” (NTLH). Por qualquer método que avaliemos, esta é a virtude mais inclusiva que aparece na lista. Significa que o líder na igreja de Cristo não pode ter defeito óbvio de caráter e deve ser pessoa de reputação imaculada. Dificilmente se esperaria que não tivesse defeito, mas que fosse sem culpa. E apropriado que o ministro seja julgado por um padrão mais rígido que os membros leigos da igreja. Os leigos podem ser perdoados por defeitos e falhas que seriam totalmente fatais a um ministro. Há certas coisas que um Deus misericordioso perdoa em um homem, mas que a igreja não perdoa no ministério deste. A irrepreensibilidade do candidato é requisito no qual devemos ser insistentes hoje em dia, como o foi Paulo no século I.

O líder da igreja deve ser exemplar especialmente em assuntos relativos a sexo. Este é o destaque da segunda estipulação do apóstolo: Marido de uma mulher (2). Trata-se de precaução contra a poligamia, que gerava um problema sério para a igreja cujos membros eram ganhos para Cristo vindos de um paganismo que tolerava abertamente casamentos plurais. Em todo quesito que a igreja com seus altos padrões éticos relativos a casamento confrontar o paganismo de nossos dias, em regiões incivilizadas ou não, a insistência cristã na pureza deve ser enunciada de forma clara e seguida com todo o rigor.

Mas temos de perguntar: A intenção de Paulo era desaprovar o segundo casamento? Alguns dos manuscritos antigos requerem a tradução “casado apenas uma vez” (conforme nota de rodapé na NEB). “Sobre este assunto, como em muitos outros”, comenta Kelly, “a atitude que vigorava na antiguidade difere notadamente da que prevalece em grande parte dos círculos de hoje. Existem evidências abundantes provenientes da literatura e inscrições funerárias, tanto gentias quanto judaicas, que permanecer solteiro depois da morte do cônjuge ou depois do divórcio era considerado meritório, ao passo que casar-se outra vez era visto como sinal de satisfação excessiva dos próprios desejos”.1 E óbvio que em alguns segmentos da igreja primitiva esta era a opinião prevalente, chegando ao extremo último da ordem de um ministério celibatário.

Mas esta não é a interpretação do ensino de Paulo que prevalece hoje. E bem conhecida sua própria preferência da vida solteira em comparação ao estado casado; e há passagens nos seus escritos em que ele recomenda este estado aos outros (e.g., 1 Co 7.39,40). Talvez o melhor resumo da intenção do apóstolo para os nossos dias seja a declaração de

  1. F. Scott: “O bispo tem de dar exemplo de moralidade rígida”.2

As próximas três especificações — vigilante, sóbrio, honesto (2) — têm relação próxima entre si e descrevem a vida cristã ordeira. Moffatt traduz estas qualidades pelas palavras: “temperado [NVI; cf. RA], mestre de si, calmo”. A temperança neste contexto transmite a ideia de autocontrole (cf. CH) ou autodisciplina.

O próximo quesito qualificador é apresentado pelo apóstolo na palavra descritiva hospitaleiro (2). Esta mesma característica é mais detalhada em Tito 1.8: “Dado à hospitalidade, amigo do bem”. Nesses primeiros dias da igreja, esta era uma virtude muito importante. Havia poucos albergues no mundo do século I, e os apóstolos e evangelistas cristãos que eram enviados de lugar em lugar ficavam dependentes da hospitalidade de cristãos que tivessem um “quarto de profeta”, mantido com a finalidade de atender essas necessidades. Em nossos dias de hotéis, expressamos nossa hospitalidade cristã de modo diferente. Mas quando a igreja era jovem, essa hospitalidade era extremamente primordial. O dever e privilégio de ministrá-la recaíam naturalmente sobre o bispo ou pastor. O espírito essencial do ato é tão importante hoje como era outrora.

Igualmente essencial e até mais importante é a sétima qualidade que Paulo menciona: Apto para ensinar (2). Pelo visto, nem todos os pastores eram empregados no ministério de ensino. E o que mostra 5.17: “Os presbíteros que governam bem sejam estimados por dignos de duplicada honra, principalmente os que trabalham na palavra e na doutrina”. Mas a aptidão para ensinar era rendimento certo para o ministro cristão. Era importante então como é hoje. Sempre haverá indivíduos que possuem maior capacidade nesta ou naquela área que outros, mas certa habilidade para ensinar é de extrema necessidade ao ministério completo e frutífero.

Este versículo contém mais seis especificações que devem caracterizar o líder cristão: Não dado ao vinho, não espancador, não cobiçoso de torpe ganância, mas moderado, não contencioso, não avarento (3). Todos os quesitos, exceto um, são negativos, mas todos são importantes. O primeiro nos soa um tanto quanto estranho, sobretudo quando seu significado preciso é entendido com clareza. Temos estas opções de tradução: “Não deve ser indivíduo dado a beber” (NEB); “não pode ser chegado ao vinho”, (NTLH); “não deve ser apegado ao vinho” (NVI; cf. BAB); “não deve ter o vício da bebida” (BV); ou pelas palavras diretas: “Não bêbedo” (RSV). O ponto que confunde o leitor da atualidade é que tal estipulação fosse necessária. No pensamento da maioria dos evangélicos hoje em dia, a abstinência total de bebidas alcoólicas é elementar na vida cristã. E não é difícil perceber que o julgamento moral que determina a abstinência total para o cristão — leigo ou ministro — é a compreensão básica da ética cristã. Mas esta ideia, como o julgamento moral das trevas, não fora discernida claramente no século I. Temos de manter isso em mente para entendermos as alusões do apóstolo ao uso do vinho neste e em outros textos. Kelly observa que “hoje em dia, as pessoas por vezes se surpreendem que Paulo achasse necessário fazer tal determinação, mas o perigo era real na sociedade desinibida em que se situavam as congregações efésia e cretense”.3

Não espancador (3) é expressão que exige interpretação neste contexto. Significa, literalmente, “não doador de socos”. Kelly traduziu por “não dado à violência” (cf. BAB, BV, CH, NVI, RA). O homem de Deus deve ser caracterizado por amor e comedimento cristão.

Não há ambigüidade ligada à próxima estipulação de Paulo: Não cobiçoso de torpe ganância (3). Esta é advertência contra o amor do dinheiro que o apóstolo, mais adiante nesta mesma epístola (6.10), declara ser “a raiz de toda espécie de males”. Tal proibição tinha relevância imediata, pois fazia parte da responsabilidade do pastor cuidar dos bens e capitais da igreja. Esta seria fonte constante de tentação para o avarento. Somente aquele que desse toda prova de não ter espírito de cobiça pode ser separado com segurança para a obra do ministério.

Claro que é perfeitamente possível que ministros e leigos sejam enganados pelo que nosso Senhor chamou de “a sedução das riquezas” (Mt 13.22). A sutileza desta sedução é que a pessoa não precisa possuir riquezas para ser enganada por elas. Desejá-las ardentemente, permitir-se adotar atitudes calculistas na esperança de obter riquezas, ficar indevidamente interessado por salários e lucros deste mundo não podem deixar de empobrecer e, no final das contas, destruir o valor do próprio ministério. Tudo isso está implícito no aviso paulino do desejo controlador por dinheiro.

A única virtude positiva no versículo 3 é moderado, (“tranquilo”, CH; “cordato”, RA). Isto significa não tanto a capacidade de manter a calma sob controle quanto a capacidade de resistir sob pressão, com infalível espírito de bondade e paciência. Paulo exalta esta virtude em 1 Coríntios 13.4, quando nos assegura que o amor é sofredor e benigno — benigno mesmo no fim do sofrimento. As especificações adicionais — não contencioso, não avarento (5) — são repetições para enfatizar os quesitos já estipulados.

Este é ponto da mais grave importância: Que governe bem a sua própria casa, tendo seus filhos em sujeição, com toda a modéstia (4). Como ressalta E. K. Simpson: “O ideal do celibato sacerdotal é tão totalmente estranho ao modelo primitivo, que se toma por certo que o candidato ao ministério já seja casado de idade madura. A disciplina paterna relaxada o desqualifica imediatamente para a posição de liderança na igreja”.4 Esta é a versão que Phillips fez do versículo 4: “Deve ter a devida autoridade em sua própria casa e ser capaz de controlar e exigir o respeito de seus filhos” (CH). Temos de admitir que, entre todos os padrões, este é um dos mais difíceis que Paulo estabeleceu. Mas como é importante! Muitos ministros têm tido sua utilidade limitada ou mesmo destruída por não exercerem a disciplina parental. E fácil ficarmos tão envolvidos em salvar os filhos dos outros que acabamos deixando os nossos próprios filhos escapulir de nosso controle. Chega o momento em que os filhos crescem e têm de assumir a direção da própria vida. Nessa hora, ninguém estará com eles ao tomarem decisões que julgarem acertadas. Mas a disciplina firme, cheia de amor e regada com oração durante os anos formativos da vida de nossas crianças é seguramente o poderoso fator determinante que possuirão quando tiverem de decidir sozinho o curso que seguirão na vida. Há, portanto, força convincente no fato de Paulo insistir no dever que o ministro tem de controlar a própria casa. E ninguém pode contradizer a verdade básica que está entre parênteses no versículo 5: Porque, se alguém não sabe governar a sua própria casa, terá cuidado da igreja de Deus?

O versículo 6 oferece perspicácia muito interessante sobre a situação em Éfeso: Não neófito, para que, ensoberbecendo-se, não caia na condenação do diabo

(6). Esta é advertência contra a promoção muito rápida à liderança de “recém-convertidos” ou pessoas “recentemente batizadas”. Embora a igreja efésia já tivesse muitos anos de existência e, provavelmente, não devesse ter carência de líderes maduros, havia indícios de que candidatos imaturos ao ministério estavam sendo postos em serviço. Paulo acreditava em maturidade e preparação de candidatos para este cargo santo, e por uma boa e suficiente razão. Existia o perigo de que, para alguém inadequadamente preparado, a tentação ao orgulho espiritual se tornasse grande demais para ser resistida. Isso é tragédia na certa, tragédia descrita pelo apóstolo nos seguintes termos: Cair na condenação do diabo. C. K. Barrett destaca que “o julgamento não é tramado pelo diabo, mas feito por Deus em rígido acordo com a verdade”.6 A tradução de Phillips expressa o que o apóstolo quis dizer: “Para que não se torne orgulhoso e participe da queda do diabo” (CH).

Esta determinação lembra uma situação nos procedimentos de nosso Senhor com seus seguidores, relatada em Lucas 10.17-20. Os setenta haviam acabado de voltar de sua missão designada e estavam exultantes com o fato de que “até os demônios se nos sujeitam”. Jesus não reprovou imediatamente o orgulho espiritual principiante, mas observou um tanto enigmaticamente: “Eu via Satanás, como raio, cair do céu”. E completou: “Eis que vos dou poder [...] [sobre] toda a força do Inimigo. [...] Mas não vos alegreis porque se vos sujeitem os espíritos”. Foi o orgulho que custou a Lúcifer o seu lugar nas hostes celestes, e esta foi a condenação do diabo. O ministro cristão tem de estar atento para que o orgulho não o compila a participar desta condenação.

Resta ainda uma especificação final para aquele que deseja servir na posição de bispo ou líder: Convém, também, que tenha bom testemunho dos que estão de fora, para que não caia em afronta e no laço (“armadilha”, NTLH) do diabo (7). O ministro cristão tem de inspirar o respeito e a confiança da comunidade fora da igreja, caso deseje ganhar as pessoas dessa comunidade para a igreja. E fácil dizer: “Não me importo com o que as pessoas pensem de mim”; e contanto que essa atitude seja devidamente planejada e corretamente compreendida, justifica-se. Mas ninguém deve ser indiferente à sua reputação na comunidade em que vive. Ele deve desejar veementemente que as pessoas o considerem inteiramente acima de repreensão. Ver a questão de outro modo, diz Paulo, é expor-se à mesma armadilha que aguarda o indivíduo cujo espírito está arruinado pelo orgulho espiritual.Glenn Gould. Comentário Bíblico Beacon. Editora CPAD. Vol. 9. pag. 468-472.fonte estudaalicao.blogspot.com/mauricioberwaqld.comunidades.net